Ao longo desses 16 anos, tive que engolir algumas vírgulas, me engasgar com alguns soluços e soluçar alguns silêncios, inumeros silêncios. Sempre me achei no direito de colocar Deus no pé da parede e fazer aquelas perguntas que nós todos no fundo, já sabemos as respostas, de perguntar os porque's disso e daquilo. De pegar meu travesseiro, e fazer dele o meu cúmplice, fazer com que me escutasse todas as noites com aqueles desabafos que na verdade não eram tão necessários, e nem perguntava se ele queria ouvir, molhava-o com lágrimas de saudade, de sofrimento, de culpa; tornava-o meu aliado (mesmo que ele não quisesse), achava que tinha o absoluto controle de todas as situações. Ora, quanta ousadia. Mas mesmo assim chegavam sem ter aparentemente um porque certo e bem, bem convincente, que na verdade fosse exatamente o que eu queria que fosse; chegavam como que em uma retrospectiva de todos os pensamentos positivos, todas as promessas eternas, os abraços apertados, os beijos demorados, as mensagens sem respostas, os incontáveis recomeços, aqueles recomeços desejados; as expectativas merecidas, os afetos provocados e vividos tão intensamente, os sentimentos marginais, as saídas não permitidas, os atos intencionais, os arrependimentos mortais, a cabeça no ombro e uma mão em meu cabelo, o olho no vazio, as brigas banais, o amor incondicional, o telefonema inesperado, o pedido declarado, passageiro, o sono inquieto, teimoso, eufórico; a noite em claro, os devaneios pressentidos, os brincos esquecidos, as taças quebradas, as bocas caladas, as paixões calculadas e que necessitavam de uma pequena prova real, que acabava desaparecendo no meio da história, da contagem. As vinganças inofensivas e ofensivas, as tantas tentativas frustradas, os carinhos somados e subtraidos, os pensamentos reprovados e aprovados, as frases pensadas e esquecidas, as palavras medidas, as reticências repetidas e as grandes e experientes coisas da vida. Mas ai você para, retorna a realidade, ao presente que deveria sim ser vivido todos os dias, com todas as pessoas, com toda esta mesma intensidade e então se toca que as coisas devem acontecer exatamente assim, desse mesmo jeitinho, nesta mesma ordem e que toda essa mistura de acontecimentos, de sentimentos são muitos, são infinitos, inacabados, intocáveis, inexplicáveis, irreversíveis.... São simplesmente amores, meus, seus, nossos. E o que seria de nós, seres humanos, se não existisse esse turbilhão de coisas, essa magia, essa falta de razão e esse excesso de emoção? é verdadeiramente impossivel viver assim. É preciso fazer com que nossos olhos brilhem mais fortes, que o nosso coração bata mais acelerado, que nossas pernas tremam, e que nós não respeitemos a razão (pelo menos por um instante), porque esta razão não cabe dentro do amor.

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